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Receitas da Helena - Geleia de Camarinha Negra

Da Série O Que Eles Comiam (O Grande Guerreiro Otomano - Ertugrul Dirillis- Netflix)

Em 1475, alguns importantes portos marítimos da península da Criméia (província da Ucrânia), situada nas margens do Mar Negro, fronteira Sul da Turquia, passaram a integrar o Império Otomano, e o Khanato da Crimeia como um todo se tornou Estado Satélite. Desse modo, o mar Negro ficou cercado por territórios otomanos e dependentes deles. No reinado de Katarina, a Grande, as guerras para retomada do Cáucaso resultaram na diáspora otomana, com turcos sendo expatriados para a Turquia. No entanto, grande parte dos fiéis muçulmanos foram realocados (armênios, gregos e georgianos) e enviados para a Península de Kamtchatka, na província chamada Kray de Kamtchatka, na Sibéria (norte do Cazaquistão, na fronteira sudoeste do Turcomenistão). Esta receita é a iguaria apresentada para os turistas que visitam a cidade, oferecida como atração principal da localidade.

A camarinha, parecida com o mirtilo (são da mesma família Ericaceae) somente aparece no solo ensombrado das florestas de pinheiros das estepes geladas do Cáucaso e na Sibéria. As tribos nômades descobriram seu poder de tingimento para a lã de tapetes e durante a colheita, reservavam parte das frutas para fazer a geleia que era guardada em potes de cerâmica durante todo o período de inverno. Silvestres, as frutinhas negras e doces, levemente ácidas forneciam a pectina de suas cascas, que após fervidas e passadas pelo processo de extração da tinta usada para o tingimento, eram depois finalizadas pelo fixador chamado alúmen (conhecido como pedra Hume), se transformavam no vermelho mais intenso até hoje apreciado pelas noivas turcas.

A primeira aparição do uso de corantes ocorreu no Egito Antigo 2.500 aC. Farta correspondência entre os fenícios mesopotâmicos do Crescente Fértil foi encontrada, chamadas Tábuas de Amarna, trocadas entre o Faraó Amenófis II e o Rei Hamurabi da Babilônia. Além de grafadas receitas de comidas em papiros (Jean Bottero, assiriólogo francês contemporâneo), foram traduzidas escritas de procedimentos de uso de frutas, raízes, folhas e minerais para tingimento de tecidos e cerâmicas, nominando o vermelho da Alizarina, cuja palavra deriva do árabe al-usara, que significa suco. Esta é a prova que os descobridores do vermelho intenso chamado atualmente de “vermelho-da-turquia” (Turkey-red) foram os habitantes do Crescente Fértil, os árabes descendentes de Abrãao que se dirigiram À Turcomênia. Extraído de plantas do género Rubiáceae, durante séculos, este rubro luminoso, também conhecido naquela como como vermelho-turco ou rubia tinctorum, foi o único corante vermelho resistente à luz que se conhecia, obtido com um minucioso processo de extração. Somente no Crescente, entre os rios Tigre e Eufrates, nasciam as flores do gênero Rubia Arqyi, a planta tintureira da qual se extraía a alizarina.

O tingimento com a ruiva permitia obter tecidos de um vermelho intenso e brilhante, especialmente em fibras de algodão e linho, conhecido por “vermelho-da-turquia”, processo no qual o cálcio é incorporado no complexo do corante, sem paralelo com outros corantes vermelhos.

As tribos descobriram que xixi de vaca e estrume de cavalos misturados ao suco de limão também eram usados para dar fixação e brilho às cores, certamente pelo alto teor de ureia (sal) e fosfatos.

Semelhante ao vermelho da Rubia tinctorium, conhecida ruiva-dos-tintureiros ou garança, o vermelho intenso conseguido das frutinhas foi chamado de Vermelho Turco, um vermelho vivo destinado aos tecidos dos vestidos das noivas muçulmanas, e dos kaftans dos Sultões. O Sultão Ahmed II usava um traje vermelho vivo quando necessitava revelar uma traição durante as reuniões do Sagrado Divã. O kaftã vermelho significava que o traidor apontado deveria ser executado. Simbologia mais profunda, a paixão contida no vermelho das noivas era doce como a geleia que as mulheres faziam para a cerimônia. Do suco desta frutinha silvestre se originou inicialmente a receita da bebida Sharbat, oferecida aos noivos no casamento, significando que o doce e o azedo do dia-a-dia estavam juntos, e quando sorvidos ao mesmo tempo pelos dois, resultava em Paixão, Respeito e Emoção, os três pilares da união feliz.

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